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Trago-te hoje um tema que me parece não faz sentido nenhum na sua génese: a descrença de que “Tomar conta de mim” é algo exterior à nossa responsabilidade, egoísta e impróprio na nossa sociedade.

A sociedade conseguiu desenvolver-se de tal maneira que normalizou a externalização desta coisa que é o “cuidar de nós”. Aspetos como a autoestima e a auto preservação, são agora tomados como responsabilidade externa. Como coisas que nos são dadas por outros e não por nós.

Temos crenças que não fazem sentido nenhum, e elas têm consequências reais naquilo que é o nosso auto cuidado e o nosso bem-estar físico, emocional e psicológico.

Estamos a falar de ideias falaciosas como:

  • se sou mulher, tenho de tomar conta dos filhos e quem toma conta de mim é o meu marido ou pais.
  • se sou homem, a sociedade diz-me que a minha mulher toma conta das minhas necessidades e a empresa toma conta de mim.

Não estou a dizer que tomar conta de outrem é mau, estou sim a alertar para o facto de nos termos esquecido, ou tomado como vazia, a questão de que tomar conta de nós é essencial. Repara, se cada um de nós não está a tomar conta de si, e começa a exteriorizar essa ação, como é que ela será bem feita?

Quem é que nos conhece melhor que nós próprios?

Quantas vezes há discussões que derivam de opiniões como: “ele nunca me compreende e não dá o que preciso”, “o chefe não valorizou porque não notou”, “ela não sabe como realmente acarinhar-me”…etc.

Há esta ideia de que os outros devem saber o que nós precisamos, dentro da sua área e função, e satisfazer-nos da melhor forma. Isto não faz sentido nenhum…

Se nós não cuidamos de nós, porque é que deveríamos exigir aos outros que o façam?

Se, por vezes, nem nós sabemos o que precisamos, como é que os outros o podem fazer e fornecer? Será que eles têm melhor capacidade para o fazer que nós próprios? Eu acredito que não!

A probabilidade que alguém, que não tu, perceba exatamente o que precisas e to dê, é muito reduzida, se tu não o disseres e pedires. Faz sentido, certo? Ou partimos do princípio que toda a gente vem equipada com capacidades psíquicas avançadas, e por isso sabem ler mentes?!

AC DC (antes da crença, depois da crença)

Antes de criarmos sociedade, o ser humano estava maioritariamente focado na sua auto preservação e sobrevivência. Tratava-se de arranjar comida, de estar seguro, de prevenir doenças. Atualmente é mais fácil arranjar o que antes requeria toda a nossa energia. Com o tempo, e a socialização, passámos então a estar mais preocupados com os deveres e direitos como uma relação de troca entre pessoas, e menos atentos às nossas necessidades e capacidades de satisfação própria.

Termos o hábito da autoestima, da auto preservação, compreender o que queremos, o que precisamos, são partes essenciais para bem viver. É claro que há prioridades no cuidado, como as crianças ou os doentes, mas dar atenção aos outros sem antes cuidar de nós não é o mais fácil, produtivo, eficiente ou até correto.

Se não estiveres em condições, não serás capaz de dar em condições também. Se queres dar o teu melhor, garante primeiro que estás no teu melhor.

Se sentes o dever de cuidar dos outros, porque não te cuidas também?

Se sentes o dever de cuidar de outras pessoas, onde e como é que se normalizou que cuidar de ti, não só não é um dever, como é algo errado? O facto da maior parte das pessoas achar que dar-nos prioridade é errado ou egoísta, é uma detorpação da realidade.

Se sabes cuidar dos outros, porque não cuidas de ti também?

Se nós temos o impetuo de perguntar aos outros (crianças, doentes, idosos…mas também colegas, amigos, etc):

  • “o que precisas?”
  • “estás bem?”
  • “como posso ajudar?”

porque não nos perguntamos a nós também essas mesmas perguntas?

“Quem não cuida de si, não cuida dos outros, estraga-os” (anónimo)

Tu és a tua melhor ferramenta para saber cuidar dos outros, começando por aprender a cuidar de ti. Usa a prática de, com frequência, perguntar-te “o que preciso?”, mesmo que só ao acordar ou deitar. Assim, poderás ajudar ou cuidar dos outros da melhor forma possível, sabendo primeiro fazê-lo por ti.

Qual é o sentido de nós, como sociedade, acharmos que alguém (que não nós próprios) deve saber/conhecer/perceber e aplicar, a melhor forma de cuidar de nós?

É completamente irreal como historicamente nós chegámos a este ponto, e continuamos a projetar essas mesmas normas para o futuro. Eu acredito que se queremos mudar algo, a primeira coisa que devemos mudar é a educação, para que as crianças possam desde início ter incutidas as maneiras de pensar certas, de discernir e de descobrir por si. Se concordas com esta visão de que devemos cuidar de nós, sem ser egoístas para com outrem ou em detrimento de outrem, e sim porque é necessário cuidar de nós para dar o melhor de nós em prol dos outros. Se és uma pessoa adulta que tem crianças à tua volta, é imperativo que passes essa mensagem e ajudes a quebrar o ciclo.

É importante saberes cuidar de ti, para saberes cuidar dos outros, para conseguirmos evoluir da melhor forma.

Ao ler este artigo, algumas pessoas podem pensar: “que injustiça! Eu já cuido do marido, dos filhos e dos pais e ainda tenho de cuidar de mim?!”. Não se trata de acumular deveres, trata-se ganhar poder sobre o nosso estado, o nosso futuro, o nosso bem-estar. Tu tens essa capacidade, de compreender o que precisas e de te dar o que necessitas!

Envia este artigo àquela pessoa que merece cuidar-se. No mínimo, envia-lhe uma mensagem (ou a ti própria) com um:

“Hey, cuida de ti, tu também mereces!”

Vê a transmissão AQUI